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HISTÓRIA
DO RIO GRANDE DO SUL
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Logo
após a decretação do Estado Novo, em dez de novembro de
1937, presenciou-se num estádio do Rio de Janeiro um
singular espetáculo propagandístico. O próprio Getúlio
Vargas em pessoa, perante uma arquibancada lotada e
atenta, imbuída de fervor cívico, presidiu a chamada
cerimônia da queima das bandeiras. As flâmulas estaduais
eram, uma a uma, incineradas numa grande pira erguida em
meio a pista do estádio. Cada pano colorido devorado
pelas chamas, que supunham estar a queimar a serviço de
uma pátria unida, colhia os aplausos da multidão.
Doravante nenhuma parte da federação teria mais a sua
bandeira. Apenas a do Brasil imperaria. Só o chefe da nação,
o presidente Getúlio Vargas, mandaria. |

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Afinal, na prática,
também não existia mais a federação, pois cada estado
estava em mãos de um interventor e cada município a
mando de um intendente.
Por
instância dos representantes do Rio Grande do Sul,
presentes no espetáculo pírico, encaminhou-se ao ditador
o pedido para que a bandeira do nosso estado, a tricolor
herança dos farroupilhas, não sofresse o destino das
demais. Getúlio Vargas poupou-a. Mas não salvou-se a
nossa história regional. Ela foi-se dos livros, banida
dos manuais escolares.
Desconhecendo
a nossa história: liquidado o Estado Novo em 1945, um
jovem estudante do interior do estado, recém-matriculado
no Colégio Júlio de Castilhos, resolveu conhecer a
cidade. Os nomes das ruas pelas quais passou porém nada
lhe diziam. Quem seriam Protásio Alves, Ramiro Barcelos,
Barros Cassal, Assis Brasil ou Demétrio Ribeiro? Ou esse
tal de João Abott? Osvaldo Aranha ele conhecia, mas
Borges de Medeiros e o próprio Júlio de Castilhos nada
lhe diziam. Muito menos Carlos Barbosa ou Siqueira Campos.
Sentia-se andar por uma cidade cujas placas de ruas e praças
abrigavam fantasmas de um mundo nunca sabido.
O
Estado Novo suprimira-os da memória. Senão conseguira
removê-los das placas, expurgou-os dos manuais escolares.
A história do nosso estado, das nossas coisas, do nosso
povo, ficou ausente dos bancos colegiais, desconhecida por
milhares de jovens que passaram a saber dela pelo
"ouvi dizer", ou pela narrativa de um parente
idoso qualquer.
A
nova reconcentração do poder, a feita pelos militares em
1964, repetiu a dose. Segui-se com eles a época do
"Brasil grande", do ufanismo nacionalista. Nada
de história rio-grandense, nem de vultos locais.
Esquecendo-se
de Castilhos: de certa forma Júlio de Castilhos -
"o homem que inventou a ditadura no Brasil",
segundo Décio Freitas - caiu no esquecimento dos gaúchos
na maior parte do século, vítima de si mesmo, da sua
ideologia, por ter inoculado em Getúlio Vargas, seu mais
expressivo herdeiro, e nos militares, seus autoritários
sucessores em 1964, o seu viés centralista, exclusivista,
doutrinário, desprezador das particularidades locais. Mas
é com ele, com Júlio de Castilhos, que seguramente começa
a história do nosso século XX.
O Rio
Grande Castilhista (1891-1930)
O
diagnóstico do doutor Protásio Alves foi definitivo. O
governador Júlio de Castilhos estava para morrer. Um câncer
devorou-lhe a garganta. Sua morte, em 1903, numa mesa de
cirurgia improvisada, causou comoção geral. Anos depois
o seu sucessor, o doutor Borges de Medeiros, coletou
recursos entre o comércio porto-alegrense para erigir-lhe
uma imensa estátua, erguida na praça da Matriz, onde o
chefe republicano, sentado numa singela cadeira-trono,
cercado por toda sorte de ícones positivistas, traz em
sua mão a Carta de 1891: a constituição comtista.
Castilhos
e Comte: Júlio de Castilhos era o protótipo do
homem-idéia, o político que tinha uma filosofia, uma
causa, uma missão. Autoritário e culto, duro e visionário,
acreditava, inspirado em seu mentor ideológico, o
pensador francês Auguste Comte, ter a humanidade chegado
na era cientifica, positiva. Para implantá-la,
necessitava-se de um Estado forte, coeso - uma ditadura
republicana -, que estimulasse as ciências, as
engenharias, as matemáticas e tudo o mais que dissesse
respeito ao moderno saber, a fim de garantir a chegada do
progresso. E assim se fizeram as nossas primeiras
faculdades e nossas primeiras escolas profissionalizantes.
Para
a gerência futura do novo regime republicano que ele e
seu grupo constituíra em 1891, ordenou que se fundasse em
1900 um grande colégio secular movido à energia cívica,
a fim de formar a elite política do Estado: o Colégio Júlio
de Castilhos.
Desconfiado
da democracia, de quem só via o lado baderneiro e anárquico,
o jovem prócer confiava o destino da sociedade gaúcha a
um reduzido número de sábios luminares, os seus
companheiros do aguerrido PRR (Partido Republicano
Rio-grandense), gente escolada na luta contra a monarquia,
contra a escravidão, e contra o maragatismo, a quem
decretaram uma guerra de extermínio entre 1893-95,
recomendados por Castilhos num telegrama tristemente
famoso a que "ao inimigo não se dá trégua nem
quartel!" Eram eles, os próceres republicanos, os
novos homens do século que se inaugurava.
A
máquina republicana: morto precocemente, o Patriarca,
que é como o chamavam, restou a poderosa máquina política
do PRR com seus incontáveis chefes, subchefes e chefetes
espalhados pelos mais de cem municípios rio-grandenses.
Fora-se o ditador, mas a ditadura republicana perduraria
até 1928.
Quem
herdou-lhe o controle foi o doutor Borges de Medeiros,
seco em carnes e em palavras, que encarnava em seu
temperamento a frieza das engrenagens partidárias
montadas pelo castilhismo e a certeza da doutrina
positivista. Sua aparência insípida, de modesto
burocrata, inspirou anos depois, a que um dissidente
republicano, o dr. Ramiro Barcelos, o comparasse, num
mordaz e cruel poema satírico, ao chimango, um desolado e
rapineiro pássaro do pampa (ver Antônio Chimango).
Porém nos trinta anos que se seguiram (de 1898 a 1928),
nenhuma eleição seria perdida por ele. Nada seria
deixado à oposição maragata, que ousara em 1893 levar o
estado a uma bárbara guerra civil de 12 mil mortos, entre
os quais inúmeros degolados.
Enquanto
em outros estados da federação recém-implantada em
1891, ex-monarquistas compartilhavam do poder com os
minoritários republicanos, o exclusivismo do castilhismo
impediu que aqui o mesmo ocorresse. O critério do nosso
estado sempre foi o ideológico, não o fisiológico. Aos
maragatos, a oposição escorraçada, tratada como inimigo
vencido desde 1895, só restou-lhes recorrer às armas
quando assim desse. Deu só em 1923. Mesmo assim com pouco
resultado, quando a dissidência de Assis Brasil aliou-se
com os libertadores do caudilho Honório de Lemos. Os
neocastilhistas, liderados por Getúlio Vargas, mais
conciliadores com a oposição, assumiram então a direção
do governo gaúcho, ao final do último mandato do doutor
Borges em 1928.
O
castilhismo domina o Brasil: foi por pouco tempo que
eles por cá ficaram porque os acontecimentos extraordinários
de outubro de 1930 logo os guindaram ao poder central. O
castilhismo dali em diante (na forma de um Estado nacional
autoritário, constitucionalmente estribado num
centralismo uniforme, com enxertos de justiça social
saint-simoniana, e com a base social ampliada pelo voto
secreto e o voto feminino), levado ao resto do Brasil pela
presença getulista, dominaria o país inteiro,
concertando os desacertos do liberalismo, desmontado e
estonteado pela crise de 1929.
A
economia da carne: economicamente, nesse tempo todo,
observou-se o enorme esforço do governo gaúcho em
dotar-nos de capacidade exportadora. Gradativamente as
grandes charqueadas darão lugar em importância aos
modernos frigoríficos norte-americanos, o da Swift em Rio
Grande, e o da Armour em Livramento, atraídos que foram
em 1917 para a fronteira rio-grandense, área das grandes
criações de gado. Também travou-se naquela época uma
intensa e cara batalha de engenharia contra as bravezas da
barra de Rio Grande, para assegurar-lhe o tráfego marítimo,
reduzindo-lhe o assoreamento e ampliando-lhe o calado. Por
essa época toda, olhando-se assim pelo alto, sem
atormentar-se com estatísticas e números, poderia
dizer-se que ainda havia um empate entre os dois
rio-grandes econômicos: a metade Sul era mais ou menos
equivalente à metade Norte. Complementavam-se.
O
couro do boi, arrancado na charqueada pelotense, embarcava
na Lagoa dos Patos, subindo para o curtume do Rio dos
Sinos. O latão com banha de porco da pequena propriedade
na colônia alemã, por sua vez, descia rumo ao sul para
ir derreter-se na vianda do fronteiriço. Pouca diferença
nesse aspecto havia ainda entre Pelotas e Caxias, ou entre
Livramento e São Leopoldo.
Em
1938, Getúlio Vargas e sua família quase sucumbiram a um
golpe de mão dos fascistas brasileiros, liderado pelo
chefe da Ação Integralista, Plínio Salgado. Este
acontecimento traumático (foi a primeira vez que um chefe
de governo brasileiro foi atacado diretamente num golpe,
no qual o Presidente esteve cercado, correndo risco de
vida, por várias horas no Palácio da Guanabara no Rio de
Janeiro) , teve repercussões enormes na nossa história
regional. Sabedor que a embaixada da Alemanha nazista fora
informada do putsch integralista e nada fizera para avisá-lo,
a ditadura Vargas decidiu-se por uma ação radical que,
em 1942 culminaria na declaração de guerra ao Eixo.
A
nacionalização das colônias: em boa parte do Sul do
país até então, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio
Grande do Sul, as colonias alemãs e italianas gozavam de
inúmeros privilégios étnicos que lhes permitiam manter
a língua, a religião e a cultura. As aulas, na maioria
das escolas, eram ainda proferidas no seu idioma materno,
tendo eles a sua própria imprensa e toda uma gama de
clubes privados que lhes garantiam uma identidade e uma
independência étnica quase que total. De certa forma
continuavam a viver como se as colonias do Sul fosse uma
extensão, ainda que pequena, da Alemanha ou da Itália no
Novo Mundo.
A
ascensão do Fascismo em 1922 e a do Nazismo em 1933, com
seu discurso patrioteiro, ufanista e racista, atiçaram
nesta parte sul do Brasil algumas ambições separatistas
calcadas em argumentos étnicos e raciais: um Brasil-Sul só
para brancos, só para caucasianos, dominado pelos ítalo-germanos.
Ambições
estas, diga-se, francamente expostas na imprensa (por
exemplo, em jornais como o "Vaterland", ou o
"Deutsche Turnblätter") e cultivada em suas
reuniões em clubes e associações comunitárias ou
profissionais. Getúlio Vargas resolveu dar um basta
nisto. Todas as antigas zonas de imigração foram por
assim dizer nacionalizadas, abrasileiradas por decreto-lei
do Estado Novo.
Depois,
durante a Segunda Guerra, chegou-se até a proibir que
falassem o alemão ou o italiano. O temor que o afã
separatista conduzisse a formação de uma quisto
nazi-fascista na parte Sul do nosso continente foi tão
preocupante que, recentemente, encontraram-se documentos
que mostravam a intenção dos Estados Unidos, em caso de
guerra declarada, vir a intervir militarmente no Brasil.
A
desimportância da política local: enquanto a elite
gaúcha, com Vargas, Aranha, Collor, Neves da Fontoura, e
tantos outros, desde a Revolução de 1930, enraizava-se
no poder, o governo local foi entregue à intervenção do
general Flores da Cunha e, depois do rompimento deste com
Vargas em 1937, ao general Cordeiro de Farias e, em 1943,
ao seu sucessor, o general Ernesto Dornelles (um dos
fundadores do PSD gaúcho e mais tarde senador pelo Rio
Grande do Sul).
Neste
divisor de águas de quinze anos, um estranho processo
marcou o Rio Grande do Sul. A ascensão dos seus melhores
quadros políticos para a governança nacional esvaziou o
estado de bons políticos e também da sua magnitude,
tornando-o uma espécie de capitania militar do Estado
Novo. Ao empalmar o Brasil com sua liderança, o Rio
Grande desinflou-se da sua importância.
Do
Rio Grande Populista
ao Rio Grande Autoritário (1945-1985)
Quando
os deputados da constituinte de 1947 reuniram-se pela
primeira vez em Porto Alegre, além da excentricidade
deles proporem um regime parlamentarista exclusivo ao
nosso estado, um fato étnico chamou a atenção: o
aumento significativo de representantes da área colonial
ítalo-alemã. Eram os primeiros sinais daquilo que mais
tarde iria acelerar-se.
Alargam-se
as diferenças: a metade Sul, de origem luso-açorita,
campeira, pastoril, da fazenda, do peão "pêlo-duro",
e do estanciero de voz grossa, mandona, estiolava-se,
dando lugar em importância à metade Norte, povoada pelos
descendentes dos imigrantes com suas pequenas e médias
urbes coloniais, dominadas pela propriedade familiar, pelo
artesanato e pelo industrial diligente, de fala rústica,
com um sotaque de alemão ou de italiano abrasileirado.
Desde
1945, conquistada a democracia, Porto Alegre, como uma espécie
de zona neutra a ser ganha, será o palco da disputa entre
as duas metades do Rio Grande. A isso somou-se a emergência
do proletariado urbano, grevista, lutador. O progresso
industrial e comercial do estado, a anterior presença de
Vargas no poder central(com sua política de proteção ao
trabalhador), e a emergência da social-democracia ao
poder na Europa atiçaram as lutas sociais.
O
trabalhismo e seus adversários: um relativamente bem
organizado movimento trabalhista, com doutrina, liderança,
partido e bandeira, ideologicamente embalado pelo
getulismo e pelo laborismo inglês, emergiu para a
conquista do do poder. Do outro lado, o conservadorismo
iria alinhar-se, com a benção da Igreja Católica, numa
amplíssima frente social que ia do colono pequeno
proprietário temente a Deus, ao grande proprietário de
terras avesso ao discurso de justiça social.
Grandes
embates eleitorais deram-se entre ambos, entre
trabalhistas e conservadores, em 1950, em 1954, em 1958 e,
finalmente, o último da república populista, ocorrido em
1962, quando os conservadores, capitaneados pelo insosso
Ildo Meneghetti, a personificação do anticaudilho,
alijaram um brizolismo dividido do poder.
As
camadas geológicas: nesta espécie de camadas geológicas
das lutas gaúchas: a geográfica, travada entre a metade
Sul e a metade Norte; a sócio-política envolvendo
trabalhistas e conservadores; mais uma outra deve-se
mencionar: a que girava ao redor da funções do Estado,
separando o Rio Grande entre os intervencionistas e os não-intervencionistas.
Neste
sentido o governo do polêmico governador Leonel Brizola
(1958-1962) foi emblemático. Nacionalizações e estatizações,
acompanhadas de volumosos investimentos em educação pública,
eletrificação, transporte e demais itens da
infra-estrutura, formaram naquele final de década um
claro contraponto à política jucelinista, calcada na
atração de capital externo, voltado para os bens de
consumo (particularmente a indústria automobilística,
instalada em São Paulo).
E
será justamente a instalação do polo automotivo em São
Paulo, e tudo o mais que o acompanhou, que acentuará a
diferença entre os dois rio grandes econômicos. Como que
atraída por um poderoso imã, a metade Norte, que já
desenvolvera e adquirira uma certa tradição fabril,
especialmente no eixo que vai de Caxias do Sul a Bento Gonçalves,
passando por Farroupilha, ligou-se à pujança de São
Paulo.
Da
Serra a São Paulo: não demorou para que para lá
enviasse carroçarias, auto-peças e demais complementos
para suprir aquele imenso parque que parecia não ter mais
limite nem fim. Centenas de fábricas modernas
proliferaram pela região da Serra gaúcha para alimentar
o gigante de Piratininga. No Vale dos Sinos, entrementes,
em Novo Hamburgo, São Leopoldo e arredores, as indústrias
de calçados e de couros conseguiram abrir os mercados
internacionais aos seus manufaturados.
Evidentemente
que a maior parte dos investimentos estatais desde então
fluíram na sua direção, e outros tantos subiram a
Serra. Ao longo dos mais de vinte anos que se seguiram sob
o regime militar (1964-1985), o prestígio da antiga área
colonial só aumentou, enquanto a Grande Porto Alegre e a
metade Norte, perfazendo quase 80% do produto interno
bruto, aliavam-se na recepção dos grandes pacotes
federais que para cá vieram (Refinaria Alberto Pasqualini
em Canoas e Polo Petroquímico de Triunfo) ao qual
adicionou-se o erguimento de pontes, de viadutos, e a
construção de que excelentes estradas.
Durante
ao longo dos vinte anos de regime militar, o Rio Grande do
Sul voltou a perder sua autonomia política como nos
tempos do Estado Novo. Só que de forma diversa. Os vários
procônsules do regime militar que aqui assumiram a
governadoria (coronel Peracchi Barcelos, Euclides Triches,
Sinval Guazelli e Amaral de Souza) o fizeram com respaldo
parcial do poder legislativo, dominado pela coligação
conservadora formada pelo PSD, UDN e PL, agrupados na
sigla da Arena (Aliança Renovadora Nacional).
Da
chaminé ao Laçador: no século encerrado,
observou-se uma curiosa alternância de símbolos. Até os
anos 60 o objeto visual mais marcante da capital do
estado, e presente em todos os cartões postais que a
identificavam, era o chaminé da Usina do Gasômetro
(concluída em 1937) , pela simples razão dela ser a
primeira avistada de quem vinha da metade Sul, fosse pela
Lagoa dos Patos ou pela barca que fazia a travessia do Rio
Guaíba.
Encerrado
aquele decênio, foi a vez da estátua do Laçador assumir
sua importância e deslocá-la, a chaminé, dos cartões
postais e do imaginário local. Situada na parte Norte da
capital, na rótula da entrada da Avenida Farrapos,
praticamente à saída do aeroporto Salgado Fº, ela,
inspirada no tradicionalista Paixão Côrtes, se encontra
à vista dos que aqui chegam vindos da metade Norte, ou do
resto do país. Entre esses dois símbolos sintetizou-se,
mas as avessas, boa parte da nossa história econômica e
social deste século. Se a metade Sul encolheu-se perante
a magnitude da metade Norte, fazendo com que a proeminência
do boi desse lugar à máquina, a espora recolhia-se
frente ao óleo e a ferramenta, se a Serra ensombrava o
pampa, no jogo simbólico porém, o Laçador, o homem do
gado, substituiu a chaminé, o ícone da Indústria!
Enfrentamentos
Políticos, Ideológicos e Partidários no RGS
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Datas
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Acontecimentos
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1835-45
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Revolução
Farroupilha
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Farrapos
(republicanos, separatistas)
Líder: Bento Gonçalvez
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X
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Imperiais
(monarquistas, centralistas)
Governo da Regência
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1846- 89
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Bipartidarismo
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Monarquistas
liberais (maior autonomia da província)
Líder: Gaspar Silveira Martins
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X
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Monarquistas
conservadores
(a favor da centralização da corte)
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1893-95
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Revolução
Federalista
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Republicanos
(pica-paus)
(ditadura positivista, aliados ao
presidencialismo)
Líder: Júlio de Castilhos
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X
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Federalistas(maragatos)
(ex-monarquistas, parlamentaristas)
Líder: Gaspar Silveira Martins
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1923
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Revolução
de 1923
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Borgistas
(Chimangos)
(continuidade da ditadura)
Líder: Borges de Medeiros
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X
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Assisistas
(Maragatos)
(fim do continuismo borgista)
Líder: Assis Brasil
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1945-64
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Enfrentamento
ideológico-partidário
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Trabalhistas
(campanha trabalhista pró-getulista), PTB
Líder: Alberto Pasqualini / Leonel
Brizola
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X
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Conservadores
(antitrabalhistas), UDN, PL
Líder: Ildo Meneghetti
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1964-85
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Pemedebistas
(contra o regime militar)
Líder: Pedro Simon
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X
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Arenistas
(sustentação civil do regime)
Líder: diversos
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Projeção
para o Século XXI
A
restauração da democracia em 1985, com o fim do regime
militar, fez com que o Rio Grande do Sul recuperasse a
plenitude da independência política. Todos os processos
anteriores de intervencionismo (escolha por indicação do
prefeitos de cidade de porte médio e grande, e eleição
dos governadores por intermédio de assembléias
depuradas), foram finalmente removidos e restaurou-se -
confirmado pela constituição de 1988 -, a eleição
direta para todos os cargos executivos e legislativos. É
de se esperar pois que esta conquista não seja abalada no
futuro.
Os
limites da previsão: o exercício porém de uma visão
prospectiva em História - isto é tentar prever o que
poderá ocorrer no futuro - merece certos reparos. A História
é uma certa sabedoria que se adquire, ainda que com
recursos científicos, sobre as coisas que já ocorreram,
pelo que de há muito passou. Assim, ao imaginar-se sondar
o devir a partir dela faz com que possa incorrer-se num inócuo
exercício de futurologia, não muito distante de uma
profecia.
Ressalvo
feito, nada impede o historiador alçar-se ao exercício
de algumas projeções - sem, evidentemente, recorrer à
bola de cristal ou à consulta astrológica - sobre os
anos vindouros. O filósofo Hegel disse certa vez que a
Filosofia, como a História, não previa o futuro mas pelo
menos tinha condições de encontrar no presente alguns
sinais, alguns sintomas do devir.
Metade
Sul e metade Norte: um dos mais evidentes sinais
indica que a metade Sul, dominada pela grande propriedade
em mãos de umas 500 famílias, continuará sendo a mais
ameaçada de vir a petrificar-se, de consumir-se numa
estagnação. Tal como a mulher de Ló, ao olhar para
traz, aferrando-se aos privilégios do latifúndio e ao
escasso dinamismo produtivo que invariavelmente o
acompanha, arrisca a esterilizar-se como uma estátua de
sal. A metade Norte, por sua vez, continuará a se
distinguir por sua prosperidade e pelo seu acelerado
industrialismo. Se nada se fizer, o que hoje separa ambas
metades irá converter-se num abismo nos decênios que nos
aguardam.
As
polarizações partidárias: no campo da política,
verifica-se que a secular polarização que, em outros
tempos, opôs republicanos e maragatos (1891-1930),
trabalhistas e conservadores (1945-1964) , emedebistas e
arenistas (1964-1985), passou, nos últimos anos, por um
aggiornamento, tornando-se um enfrentamento entre petistas
e centristas (a partir de 1998). A carga ideológica que
hoje move o petismo, com seu reiterado sentimento
socialista, ainda que difuso e confuso, provavelmente irá
com o tempo dissolver-se em formas mais atenuadas de
pragmatismo político.
Globalização
e localismo: por outro lado, interessa registrar os
possíveis efeitos políticos mais amplos provocados pela
globalização, que seguramente irá continuar, ainda que
aos trambolhões, seu processo de integração econômico
e cultural de maneira cada vez mais acelerada. Se é
evidente o declínio gradativo da importância do
Estado-nacional no mundo todo, o que sobrará para o que
é apenas uma parcela dele? Que destino poderá almejar no
século adentrante um governo regional, quando se cogita
formar em breve um parlamento latino-americano, e até um
governo mundial? Neste aspecto, os futuros governantes gaúchos
seguramente decidirão sobre coisas cada vez menos
importantes.
Paradoxalmente,
ao mesmo tempo que esse movimento ocorre, retirando,
esvaziando, reduzindo, a face mais visível do poder, a da
parte de cima, a representada pelo que já se chamou de
"Estado espetáculo"(a composta pelo governador,
pelos prefeitos, assembléias e câmaras), irá, por outro
lado, multiplicar a importância das de baixo, das
representações cidadãs no sentido mais amplo do termo.
É
todo um imenso, diverso, e ainda imerso, mundo de associações,
agrupações, movimentos de moradores, ativistas de
bairros e demais instituições, que tem brotado
espontaneamente numa sociedade em avançado processo de
democratização. Eles é que irão adquirir cada vez mais
proeminência e poder decisório sobre a coisas coletivas,
envolvendo a sociedade como um todo.
População
e educação: é , porém, no campo educacional e
cultural que evidentemente depositamos nossa maior esperança
e otimismo. É onde, acredito, trafegaremos com maior
segurança. No início do século XX, em 1900, nossa
população atingia um milhão e 150 mil habitantes, um
pouco mais do que 1/10 da de hoje, sendo que 70% deles
eram analfabetos. Cem anos depois, na entrada do milênio,
chegamos a quase dez milhões de habitantes, com 92% deles
alfabetizados! Enquanto Porto Alegre, que o doutor Borges
chegou a chamar de "cidade-aldeia", na virada do
século passado para este, mal alcançava os 80 mil
habitantes, agora tem mais de dois milhões de habitantes
(incluída a Grande Porto Alegre), com excelentes índices
de escolaridade. Em apenas um século praticamente
erradicamos a agrafia!
Além
disso, se hoje temos uma massa estudantil de mais de um
milhão e 200 mil matriculados, contamos ainda com uns 300
mil profissionais ligados à educação e à cultura.
A
cultura e padrão de vida: em número redondos e
absolutos pode-se dizer que 20% dos gaúchos estão
permanentemente envolvidos com o aprendizado e a cultura.
As feiras de livros se multiplicam por inúmeros municípios,
enquanto que faculdades e universidades espalham-se por
todas as zonas geográficas do estado, que ainda abriga um
dos maiores encontros voltados para o livro e a cultura do
mundo inteiro: a Jornada Literária de Passo Fundo. O Rio
Grande do Sul provavelmente irá continuar sendo, no século
adentrante, o que mais oportunidades educacionais e
culturais oferece aos seus cidadãos, mantendo um dos mais
elevados padrões de vida do Brasil. O nosso IDH (índice
de desenvolvimento humano) e a qualidade da nossa
cidadania, seguramente irá irmanar-se a dos europeus e
continuará sendo bem melhor do que a dos gregos, dos
turcos, dos italianos do sul, dos portugueses do Minho e
da maior parte dos espanhóis, especialmente os da
Andaluzia.
A
média da nossa população universitária seguramente
continuará a ser uma das mais elevadas da América do Sul
e, provavelmente, superior a de muitos estado sulistas dos
Estados Unidos.
No
final de 2100: assim, nada nos impede de imaginar que
em 2100 - nós que em 1900 inauguramos o século XX sob a
tutela da ditadura republicana e o encerramos em plena
democracia - , nossos descendentes estarão vivendo num
Rio Grande do Sul extremamente próspero, superior a boa
parte das regiões européias. Provavelmente nossa política
partidária será bem menos conflituosa, resultado da
maior homogeneidade entre as classes sociais, produto da
atenuação das diferenças sociais e culturais que irão
ocorrer no transcorrer do século XXI. Um estado que poderá
abrigar o dobro e até o triplo da população atual sem
que isso implique em dilacerações sociais ou em lutas
radicais.
A
escola da política: Péricles, o estadista ateniense,
num celebrado discurso reproduzido por Tucídides,
enalteceu a sua cidade considerando-a como a "escola
da Hélade", por ela e suas instituições democráticas
servirem de exemplo aos demais gregos. O Rio Grande do Sul
pode também orgulhar-se de ter sido neste século a
escola da política do Brasil. Daqui saíram estadistas do
porte de Getúlio Vargas e revolucionários com Luis
Carlos Prestes, que, independentemente das inclinações
ideológicas que abraçaram, ensinaram poder-se fazer política
com "P" maiúsculo, sem ser deixarem-se tentar
por Mamon, maculando-se com o dinheiro suspeito.
Espera-se
pois que para o milênio adentrante o forte elo que sempre
ligou a Ética com a Política entre os rio-grandenses, e
que tem sido o nosso maior atributo, mantenha-se
inquebrantável, e que além de referencial obrigatório,
seja sempre o maior legado dos gaúchos à vida política
do Brasil.
Ocupação
e Povoamento
do Rio Grande do Sul
(XVII-XIX)
A
história da ocupação e do povoamento do Continente de São
Pedro do Rio Grande do Sul está demarcada pela questão
fronteiriça. Região limite entre dois impérios: o
espanhol, com sede em Buenos Aires no Rio da Prata, e o
português, tendo o Rio de Janeiro como cidade-trampolim.
Pelo Tratado de Tordesilhas de 1493, a linha que separava
os dois reinos católicos passava, na sua extensão
meridional, ao largo do litoral do atual estado de Santa
Catarina.
Teoricamente
a região que viria fazer parte do Rio Grande do Sul
pertencia pois aos espanhóis. Portugal, por sua vez,
sempre procurou estabelecer como sua real fronteira, como
limite extremo do seu Império na América do Sul, não
uma linha abstrata, mas sim a margem esquerda do Rio da
Prata. Todos os conflitos entre o Brasil e seus vizinhos
do Prata foram decorrentes dessas duas visões antagônicos
sobre quais eram os marcos verdadeiros que os separavam.
Uma
Fronteira Quente
O
Rio Grande do Sul foi desde os seus começos - ao contrário
dos demais estados brasileiros - uma "fronteira
quente", isto é, local de disputa militar, de
guerras e de arranjos diplomáticos, área conflituosa que
se estendeu dos finais do século XVII até o século XIX,
quer dizer, por quase dois séculos. Situação que começa
somente recentemente a se inverter graças ao Mercosul,
que tem por objetivo a integração econômica e não mais
a rivalidade política.
Missões
Acredita-se
que os padres da Companhia de Jesus tenham atravessado o
rio Uruguai por volta de 1626, sendo que o pe. Roque
Gonzales foi martirizado em 1628. Na sua ocupação,
adotaram a alternância da cultura do erva-mate com a pecuária
para harmonizar-se com os hábitos sedentários e nômades
dos guaranis. Em 1637, o bandeirante Raposo Tavares
destruiu as reduções situadas entre os rios Taquari e Caí,
fazendo os jesuítas refluírem para as margens do
Uruguai. A partir de então, o gado, sem interesse para os
bandeirantes predadores e apreadores de índios,
esparramou-se, tornando-se gado "chimarrão",
selvagem, formando as Vacarias do Mar e as Vacarias dos
Pinhais. O verdadeiro apogeu das Missões ocorre entre
1720-56, quando se estruturam os 7 Povos das Missões (S.
Nicolau, S. Ângelo, S.Luiz, S. Lourenço, S.João Velho,
S.Miguel, S. Borja), até sua destruição durante as
Guerras Guaraníticas, iniciadas pela expedição
luso-espanhola de 1756, tendo no cacique Sepé Tiaraju o
seu principal defensor. A "época de ouro" das
missões foi possível porque os bandeirantes tornaram-se
garimpeiros nas Minas Gerais, e depois, tropeiros e
criadores de gado bovino e muar, deixando de as importunar
com suas expedições de caça ao índio. As Missões
passam ao controle português pelo Tratado de Madri, de
1750, mas efetivamente a região missioneira só é
ocupada em 1801.
Autoridades
Portuguesas
Com
a fundação da cidade de Colônia do Sacramento nas
margens do Rio da Prata, em frente a Buenos Aires, em
1680, tem início uma rivalidade de século e meio entre o
Império português e o espanhol pela posse da embocadura
e pelas margens do Rio da Prata. Conflito, permeado por
guerras e tratados, que se prolongará, inclusive após a
independência da Argentina e do Brasil, até 1828, com o
reconhecimento da autonomia da República do Uruguai. Para
melhor poder apoiar a sua base de colônia, nas margens
orientais do Rio da Prata os lusos, comandados pelo
brigadeiro Silva Paes, fundaram Rio Grande, em 1737. E
para afirmar sua presença definitiva, distribuíram estâncias
entre os oficiais portugueses que davam baixa, ao largo da
linha que partia de Rio Grande até as barrancas do Rio
Uruguai.
Açorianos
Dando
seguimento à ocupação por meio de colonização, os
lusos trouxeram em seguida das ilhas dos Açores os
"casais de número", que receberam terras na
região da Lagoa dos Patos, rios Guaíba e Jacuí,
povoando Porto Alegre, Triunfo e Cachoeira. Inicialmente
os açorianos se dedicaram a agricultura (triticultura),
mas abandonaram-na em 1820 para voltar-se para a pecuária,
aproveitando-se do crescimento da indústria do charque,
implantada por volta de 1780 ao redor de Pelotas e depois
Santo Amaro e Triunfo. A data de 1756 assinala a fundação
de Porto Alegre como vila. Com a invasão castelhana de
1763, a capital deixa de ser Rio Grande, que ficou 13 anos
nas mãos deles, mudando-se para Viamão e depois,
definitivamente, para Porto Alegre. Com a expansão das
charqueadas ocorre a importação de mão-de-obra escrava,
fortemente concentrada na área de Pelotas, espalhando-se
depois pelo interior.
Alemães
Chegam
a partir de 1824 e são instalados na antiga Feitoria do
Linho Cânhamo, nas beiras do Rrio dos Sinos. Alguns foram
trazidos como mercenários para lutar na Guerra
Cisplatina, mas a maioria era composta de lavradores que
receberam pequenos lotes de terras em "linhas" e
"picadas" ao longo do Vale dos Sinos e na
encosta da Serra. Praticam a chamada "economia
colonial", o artesanato e a pequena indústria, tendo
em Porto Alegre seu principal mercado. Era-lhes vedado ter
escravos.
Italianos
Para
os italianos, que chegam em 1875, são reservadas as
terras menos acessíveis dos altos da Serra, tendo como núcleo
de povoamento os "fundos de Nova Palmira".
Assentam-se em Conde d'Eu e d. Isabel. Dedicam-se à extração
de madeira, a vitivinicultura e ao artesanato. Seu
impressionante crescimento demográfico nesse século faz
com que se desloquem para as regiões centrais e orientais
do estado.
Atividades
econômicas
As
missões jesuítas e logo em seguida a formação das estâncias
de lagunenses e vicentinos (paulistas que se deslocavam do
Norte), foram responsáveis pela introdução da pecuária
no RGS. A estância correspondeu ao abandono das
atividades predadoras feitas por gente selvagem do campo
que abatia indiscriminadamente os animais apenas para
extrair-lhes o couro e vendê-lo aos contrabandistas. A
agricultura nesses primeiros tempos confinava-se ao
plantio da erva-mate.
Com
a descoberta das lavras de ouro e de diamante em Minas
Gerais e o elevado preço que os alimentos passaram a
alcançar nas regiões de garimpo tornou-se a pecuária
uma atividade altamente rentável. Com as minas formou-se
o primeiro grande mercado interno brasileiro ao qual o RGS
irá se atrelar, sendo essa uma das razões econômicas da
tensão entre o separatismo e o nacionalismo, vigentes até
hoje no nosso estado. Nos finais do século XVIII, com a
implantação das charqueadas, um mercado bem mais vasto
se abriu. Não se exportava mais apenas gado em pé
(bovino e muar) como antes. Era possível, doravante,
ambicionar atingir, além do Centro e do Nordeste do
Brasil, até os mercados do Caribe e dos estados sulistas
dos EUA, porque o charque era a alimentação básica dos
escravos. A comida dos escravos, por sua vez, era paga
com... escravos. A chegada de levas de africanos ao RGS
foi resultado da expansão da indústria das carnes
manufaturadas e salgadas, que se espalharam por Pelotas e
beiras da Lagoa dos Patos e o Jacuí.
Com
a vinda dos açoritas, a partir de 1752, a agricultura
tomou um novo impulso com as plantações de trigo ao
redor de Rio Grande, expandindo-se para outras áreas de
colonização açoriana, até ser destruída pela praga da
ferrugem por volta de 1820 e pela ausência de apoio
governamental. Os açorianos tornaram-se então
basicamente pecuaristas e charqueadores. Uma agricultura e
uma criação mais diversificada (suínos e aves) só
chegará com a formação das colônias alemãs e
italianas, entre 1824 e 1875, bem como são elas que
trazem técnicas industriais que permitem lançar os
fundamentos da pequena indústria do curtume, da
metalurgia e da vitivinicultura. A pecuária toma novo
impulso com a criação dos frigoríficos estrangeiros, da
Armour e da Swift, em 1917, tornando possível exportar
carnes enlatadas e refrigeradas para o Centro do País. O
sucesso da chamada "economia colonial" deve-se
à farta distribuição de terras feitas entre os colonos,
formando não apenas um dinâmico centro produtivo
policultural como também tornou-se um crescente mercado
consumidor.
Cronologia
1626 - Primeiras
reduções jesuítas no Rio Uruguai.
1637 - Destruição
das reduções pelo bandeirante Raposo Tavares.
1680 - Fundação
por Manoel Lobo da Colônia do Sacramento, na margem
esquerda do Prata, em frente a Buenos Aires.
1737 - Fundação
de Rio Grande pelo brig. Silva Paes.
1750 - Tratado de
Madri, Colônia do Sacramento é trocada pelas Missões.
1752 - Chegada
dos açoritas. P.Alegre, fundada em 1756, torna-se com a
invasão castelhana.
1756 - Início
das Guerras Guaraníticas, destruição das missões. Fim
da "época de ouro" das Missões (1720-56).
1776/7 - Recuperação
de Rio Grande. Colônia do Sacramento fica em posse
definitiva dos espanhóis.
1824 - Colonização
alemã do Vale dos Sinos.
1875 - Colonização
italiana do alto da Serra.
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