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 Última atualização

janeiro 01, 2008

 
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PERSONALIDADES NA HISTÓRIA DO SUL

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Nesta página você encontrará pessoas que participaram diretamente na história dos estados da região sul do Brasil. 


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Anita Garibaldi

Julio de Castilhos

Correia Júnior

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Antônio de Souza Netto Silva Gomes Bento Gonçalves
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Giuseppe Garibaldi Guairacá Gumercindo Saraiva
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Sepé Tiaraju

Assis Brasil

Barão de Mauá
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ANITA GARIBALDI - HEROÍNA NO AMOR, NA GUERRA E NA FAMÍLIA  

Anita Garibaldi

Aos dezoito anos, Ana Maria de Jesus Ribeiro passa a ser Anita Garibaldi e escreve definitivamente uma nova página na história da Revolução farroupilha, a partir de agosto de 1839, quando deixou o marido, assumiu sua paixão e embarcou no navio comandado por Giuseppe Garibaldi, "o herói de dois mundos". 

O primeiro encontro entre Aninha e Giuseppe Garibaldi pode ter acontecido de várias formas, segundo as diferentes versões. Garibaldi diz nas "Memórias", que estava a bordo de uma embarcação, na Barra de Laguna, desanimado, solitário, pensando nos amigos que perdera no naufrágio em Campo Bom, carecendo de "uma presença feminina". Foi quando dirigiu o "olhar à ribeira", onde no morro da Barra pôde ver "as belas jovens ocupadas nos seus diversos afazeres domésticos. Uma delas atraía-me mais especialmente que as outras..."

Garibaldi desembarcou e caminhou na direção da casa "sobre a qual havia já algum tempo fixara-se toda a minha atenção". O coração "disparava", encerrando "uma dessas resoluções que jamais esmorecem. Um homem (eu já o avistara) convidou-me a entrar". 

Deparou-se então com Aninha e pronunciou a famosa frase: "Virgem criatura, tu serás minha!" O próprio Alexandre Dumas, a quem Giuseppe ditou anos mais tarde as "Memórias", anotou que "esta passagem é intencionalmente coberta pelo véu de um enigma".

Virgílio Várzea, em texto de 1919, diz que do tombadilho do navio, na Barra, "chamou-lhe vivamente a atenção uma moça alta que, à porta de uma choupana, parecia aflita e a chorar. Preocupado com o que teria sucedido à pobre criatura, mandou guarnecer um escaler e largou para a praia. Aí chegando dirigiu-se à moça, perguntou-lhe o que tinha. Ela explicou-lhe, por entre lágrimas, que estava com o marido de cama e muito mal das febres", assinala.

Por causa disso, Garibaldi "propôs-lhe levar o esposo a tratar-se no hospital de sangue que os republicanos tinham estabelecido na Laguna. Aceitou, mas sob condição de acompanhar ela ao doente, o que foi deferido", sendo Manoel transportado. "No hospital transformou-se a moça na melhor das enfermeiras, não só ocupando-se carinhosamente do marido como dos numerosos feridos dos últimos combates que aí se achavam em tratamento. Enquanto dias depois o esposo falecia. Embora esmagada por esse golpe, ela continuou a desvelar-se pelos demais enfermos com admiração e alegria geral de todos."

Nas manhãs seguintes, alegando visita a "seus marinheiros feridos", Garibaldi demorava-se "longo tempo a conversar com a enfermeira, a quem, sem saber como nem porque, se sentia preso de grande simpatia desde o primeiro momento em que a viu. Ela, a seu turno, experimentava o mesmo sentimento por ele. Era o começo de uma grande e mútua paixão".

A terceira possibilidade é levantada por Saul Ulysséa. "Conta a tradição que Garibaldi com ela se encontrara no lugar Figueirinha", onde funcionou durante muitos anos o Fórum de Laguna, próximo do Hospital de Caridade. "Existia naquele local muitas fontes de lavagem de roupa, não sendo de duvidar que Anita ali estivesse para a lavagem de sua roupa e de sua mãe." Todas essas versões, com derivações e mesmo fusões entre elas, alimentam permanentemente o mito, fornecendo matéria-prima a projetos de ficção (artes) e de resgate histórico da personagem.

Anita tinha apenas 18 anos quando participou do primeiro combate. Ela e Garibaldi deixaram Laguna no dia 20 de setembro de 1839, numa viagem que seria a de sua lua-de-mel. Com uma frota de três embarcações, seguiram até a altura de Santos (SP), onde investiram contra uma corveta imperial, passando na seqüência a ser perseguidos por uma esquadra. De volta ao Sul, buscaram abrigo nas enseadas que recortam o litoral catarinense, onde encontram duas sumacas carregadas de arroz, que foram capturadas.

Na altura da Ilha de Santa Catarina travam combate com os ocupantes do navio imperial Andorinha. Uma forte ventania causa a perda de uma das embarcações rebeldes, a Caçapava, restando o Seival e o Rio Pardo, com os quais penetram na enseada de Imbituba, onde Giuseppe organiza a defesa. O Seival é deixado na praia e seu canhão colocado sobre uma elevação, sob os cuidados do artilheiro Manuel Rodrigues. Na ocasião, Garibaldi tenta convencer Anita a desembarcar, mas ela resiste e não aceita. Quer ficar ao lado dele, não importa o que aconteça.

A batalha começou no amanhecer do dia 4 de novembro de 1839. "O inimigo, favorecido em sua manobra pelo vento", avança "em bordejos e torpedeando-nos com ferocidade", recorda Giuseppe, a bordo do Rio Pardo. "De nossa parte, combatíamos com a mais obstinada determinação, atacando de uma distância suficientemente curta para que pudéssemos nos valer das carabinas. O fogo, de ambas as partes, era dos mais assoladores", complementa.

Começaram a se acumular "cadáveres e corpos mutilados", cobrindo a ponte da escuna crivada de balas e com a mastreação avariada. "Estávamos determinados a resistir, sem rendição, até que o último de nós tombasse", amparados "pela imagem da amazona brasileira que tínhamos a bordo", armada com uma carabina, engajada no combate. Seguiram-se cinco horas de muita tensão, gritos desesperados, disparos e estrondos de canhões, até que os imperiais bateram em retirada, com um comandante baleado.

Henrique Boiteux não economiza adjetivos ao descrever Anita, "de carabina em punho, impávida ao fogo, desprezando a morte, batendo-se como o mais valente, emprestando valor àqueles que desfaleciam, animada com as faces rubras, olhar em chamas e cabelos soltos ao vento, percorrendo a bateria em uma atividade febril, excitando a todos na defesa do estandarte, símbolo do ideal pelo qual se batiam". A cena foi cantada em verso e prosa, servindo de inspiração para os artistas do lápis e do pincel, reproduzida nas capas de vários livros e publicações. Foi o batismo de fogo de Anita.

Nas "Memórias" que ditou a Alexandre Dumas, Garibaldi destacou o episódio. Enquanto "da ponte da escuna e com o sabre em punho, Anita encorajava os nossos homens, um petardo de canhão a derrubou, juntamente com dois dos nossos combatentes. Saltei sobre o seu posto, tomado pelo temor de nada mais encontrar além de um cadáver. Ela, porém, reergueu-se sã e salva. Os dois homens estavam mortos. Roguei-lhe então que descesse até o porão. 'Sim, irei mesmo até lá - disse-me ela -, mas para tirar de lá os poltrões que nele se esconderam.' Ela desceu e logo voltou, empurrando à sua frente dois ou três marujos, pejados por terem-se mostrado menos valentes que uma mulher".

Anita viveu três momentos distintos no combate ocorrido na Barra de Laguna, iniciado por volta do meio-dia de 15 de novembro de 1839, quando foi derrotada a experiência da República Catarinense. O comando da defesa ficou sob responsabilidade de Garibaldi, que posicionou seus navios num semi-círculo, dispondo uma linha de 300 atiradores em terra e seis canhões no Fortim do Atalaia, pelo lado Sul e na época bem próximo do canal. Ainda não havia o molhe de pedras, construído nas primeiras décadas deste século, nem o aterro. Cerca de 1,2 mil homens da infantaria rebelde estabeleceram-se nas margens do canal, aguardando o ataque legal.

A bordo do Itaparica, Anita pôde observar a chegada das forças adversárias, sob o comando do capitão-de-mar-de-guerra Frederico Mariath, compostas por 13 navios, com 300 praças de guarnição, 600 de abordagem e 33 bocas de fogo. Enquanto Garibaldi observava de uma colina o movimento da esquadra legal, Anita apontou o canhão e disparou o primeiro tiro, seguindo-se uma terrível batalha.

O segundo momento de Anita começa quando Garibaldi ordena que ela vá pedir reforços ao general Canabarro, estacionado nas imediações do Farol de Santa Marta. Anita cumpre a missão e retorna com ordens do comandante rebelde para retirar-se do combate e salvar armamentos e munições. Contrariado, já que pretendia incendiar a esquadra imperial, Garibaldi inicia a retirada, encarregando Anita de transportar os primeiros pertences, pretendendo com isso que ela ficasse a salvo no outro lado.

Mas ela voltou para o centro dos combates, dando continuidade a seu terceiro momento. Ela carregou o bote com armas e munições e o conduziu para o campo da Barra, gesto que repetiu cerca de 20 vezes seguidas, dando origem a diversas narrativas. Enquanto executava a missão, cruzava "sob o fogo inimigo dentro de uma pequena barca com dois remadores, dois pobres-diabos que se curvavam o quanto podiam para evitar balas e bombas. Ela, porém, de pé sobre a popa, no encruzamento dos tiros, surgia, ereta, calma e altaneira como uma estátua de Palas, recoberta pela sombra da mão que Deus naquelas horas pousava sobre mim", escreveu Garibaldi. Palas, ou Minerva, foi a deusa mitológica das artes e da sabedoria.

As forças estavam "separadas na distância máxima de quatro braças", ou quase oito metros, segundo Boiteux, ocasionando "uma tempestade de balas, de fuzilaria e de metralha, enchendo os navios de ambos os partidos de ruína e de sangue". Boiteux refere-se a um "turbilhão de fumo e fogo". A "medonha e homérica luta só se atendia à precisão dos tiros, pois o crepitar da fuzilaria e ribombar dos canhões na sua afanosa missão destruidora abafava os gritos de dor dos mutilados, as imprecações raivosas dos atingidos, as vozes de manobras dos comandantes e oficiais pelejando estes mesmos com carabinas e pistolas", assinala o historiador catarinense.

O depoimento do capitão-de-fragata J. E. Garcez Palha resume bem o cenário vivido por Anita. "Foi mais do que um combate, foi um turbilhão. Os navios avançaram com velocidade regular através de uma tempestade de balas, de fuzilaria e de metralha. Ao estampido incessante das armas misturavam-se os gritos dilaceradores dos feridos e moribundos, o sibilar do vento através do aparelho dos navios, o quebrar violento das vagas de encontro ao costado, e a voz dos comandantes e oficiais que animavam os marinheiros, pelejando eles mesmos com carabinas e pistolas."

Na ordem do dia onde narrou a batalha, Mariath informou a existência de 17 mortos e 38 feridos legalistas. Em 1860, em artigo assinado no jornal "Correio Mercantil", o militar corrigiu os números anteriores, falando em 51 mortos e 12 feridos. Não existe nenhuma estimativa do número de farroupilhas mortos no Combate da Barra. Outro ponto interessante que destaca a coragem de Anita é o fato de ela ter conseguido fugir da prisão, após o combate de Curitibanos, em dezembro de 1839, ficando durante oito dias, escondida no mato, reencontrado-se com seu marido - Giuseppe Garibaldi - já na cidade de Lages.

Indubitavelmente, a coragem da guerreira é redesenhada pela força da maternidade: em setembro de 1840, a guerreira mãe, por ocasião de um ataque em são Luis das Mostardas, conseguiu fugir, a cavalo, apenas de camisola, levando nos braços seu filho de doze dias.

Após a derrota dos Farrapos em Santa Catarina, Anita e Garibaldi fugiram para o Uruguai, atravessando o Rio Grande do Sul em cinqüenta dias, conduzindo uma tropa de novecentas reses. Naquele país Garibaldi foi convidado pelo governo para combater tropas argentinas chefiadas por Rosas, sobre quem teve vitórias que o tornaram reconhecido na Europa. Nesse tempo, Anita dedicou-se aos filhos: Menotti, Ricciotti, Teresita e Rosita e continuou apoiando o movimento revolucionário, realimentando seus ideais republicanos em reuniões políticas em sua própria casa, onde congregava um grupo de italianos republicanos.

Em 1848, Anita e os filhos partem para Itália. Lá, entre o papel de dedicada mãe e amantíssima esposa, reassume o de guerreira lutando ao lado do marido pela Independência e unificação daquele país. Em julho de 1849, Garibaldi e seus homens precisaram fugir de Roma, levando junto à tropa, por decisão dela, uma soldada grávida de cinco meses. E, depois de longa e difícil fuga, Anita gravemente doente, morreu no dia 4 de agosto de 1849 nos braços de seu grande amor, numa fazenda no nordeste de Roma.
Perseguido, Garibaldi partiu sem poder assistir ao enterro daquela que ele afirma em suas memórias, que era a dona de sua alma.

CRONOLOGIA - MOMENTOS QUE MARCARAM A VIDA DA HEROÍNA 

1821 - Nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro (Anita Garibaldi), em Morrinhos, na época pertencente à Laguna.

1835 - Anita casa com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar
        -  Início da Revolução Farroupilha

1839 - Manuel Duarte, parte, sozinho, de Laguna.
        - Proclamação da República Catarinense, em Laguna.
        - Anita conhece Giuseppe Garibaldi e parte com ele para Lages

1840 - Nasce Menotti Garibaldi, primeiro filho do casal.

1841 - Anita e Giuseppe partem para Montevidéu, no Uruguai.

1842 - Anita e Giuseppe casam, oficializando a união.

1843 - Nasce a filha Rosita Garibaldi

1845 - Nasce a filha Teresita Garibaldi
        - Morre afilha Rosita Garibaldi

1847 - Nasce o filho Ricciotti Garibaldi
        - Anita parte com os filhos para Gênova, na Itália.

1848 - Giuseppe parte par Itália (lutas pela unificação), levando os restos mortais da filha Rosita.
        - Anita e os legendários são recebidos em Ravena, Itália, por uma procissão à luz de tochas.
 

1849 - Anita, grávida pela quinta vez vai a Nizza, terra natal do marido.
        - Doente, Anita vai a Roma, onde lutam Giuseppe e seus guerreiros.
        - No dia 4 de agosto, às 19h45, morre Anita Garibaldi, aos 28 anos, em Mandriole, na Itália.

1859 - Giuseppe recupera os restos mortais de Anita e leva-os a Nice, então pertencente à Itália.


1931 - Os ossos de Anita Garibaldi são depositados no cemitério Staglieno, em Gênova.


1932 - Os restos mortais foram levados para Roma e depositados no monumento à heroína, erguido na Praça Anita Garibaldi.
 

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ANTÔNIO DE SOUZA NETTO

  "Bravos companheiros da 1ª Brigada de Cavalaria !

Ontem obtivestes o mais completo triunfo sobre os escravos da corte do Rio de Janeiro, a qual, invejosa das vantagens locais da nossa província, faz derramar sem piedade o sangue de nossos compatriotas, para deste modo, fazê-la presa de suas vistas ambiciosas. Miseráveis ! Todas as vezes que vis satélites se têm apresentado diante das forças livres, têm sucumbido, sem que este fatal desengano os faça desistir de seus planos infernais.

São sem números as injustiças feitas pelo governo. Seu despotismo é o mais atroz. E sofreremos calados tanta infâmia ? Não, nossos compatriotas, os rio-grandenses, estão dispostos, como nós, a não sofrer por mais tempo, a prepotência de um governo tirânico, arbitrário e cruel como o atual. Em todos os ângulos da província não soa outro eco que o de INDEPENDÊNCIA, REPÚBLICA, LIBERDADE OU MORTE. Este eco, majestoso, que tão constantemente repetis, como uma parte deste solo de homens livres, me faz declarar que proclamamos a nossa independência, para o que nos dão bastante direito os nossos trabalhos pela liberdade, e o triunfo que ontem obtivemos, sobre esses miseráveis escravos do poder absoluto.

Antônio de Souza Netto

Camaradas ! Nós que compomos a 1ª Brigada do Exército Liberal devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta província, a qual fica desligada das demais do Império, e forma um estado livre e INDEPENDENTE, com o título de REPÚBLICA RIO-GRANDENSE, e cujo manifesto a nações civilizadas, se fará competentemente.

Camaradas ! Gritemos pela primeira vez: VIVA A REPÚBLICA RIO-GRANDENSE ! VIVA A INDEPENDÊNCIA ! VIVA O EXÉRCITO REPUBLICANO RIO-GRANDENSE !

Campo dos Meneses, 11 de setembro de 1836.

Antônio de Souza Netto, Comandante da 1ª Brigada de Cavalaria."



*Comentario: essa foi a proclamação lida pelo Tenente-Coronel Joaquim Pedro Soares, um dia apos a vitoria dos farrapos na Batalha do Seival. No dia seguinte, 12/09/1836, ocorreu outra cerimônia, que constou da lavratura e assinatura solene da ata de declaração de independência e Proclamação da República Rio-Grandense. Lá vai, na íntegra, essa ata histórica:

Túmulo aonde encontra-se Netto "Aos doze dias do mês de setembro do ano de mil oitocentos e trinta e seis, no acampamento volante da costa do rio Jaguarão Chico, achando-se a 1ª Brigada Republicana em grande parada, estando presente o Coronel comandante da mesma, oficiais e oficiais inferiores que subscrevem, por unânime vontade destes e da tropa, foi declarado que - A província do Rio Grande do Sul de agora em diante se constitiu LIVRE E INDEPENDENTE, com o título de REPÚBLICA RIO-GRANDENSE, não só por ter todas as faculdades para se apresentar entre as demais nações livres do universo, se não também obrigada pela prepotência do Rio de Janeiro, que por tantas vezes tem destruído seus filhos, ora deprimindo sua honra, ora derramando seus sangue e,  finalmente, desfalcando-a de suas rendas públicas. Por todos os motivos que se declararão em uma próxima reunião da Assembléia Nacional Constituinte e Legislativa, protestam ante o ser supremo do Univerno, não embainhar suas espadas, e derramar todo o seu sangue antes de retroceder de seus princípios políticos, proclamados na presente declaração."

*Comentario: o General Netto (na época, ainda Coronel) enviou cópias para todos os cantos do Rio Grande para levar ao conhecimento do povo a independência. A Câmara Municipal de Jaguarão (na época, Serrito), em sessão extraordinária, foi a primeira a reconhecer a República Rio-Grandense.

Posto: General, Brigadeiro (general de brigada)
Arma:
Cavalaria
Exército:
Exército Republicano Rio-Grandense
País:
República Rio-Grandense (1836/1845)

Antônio de Souza Netto foi um dos líderes da Guerra dos Farrapos (1835/1845) e proclamador da República Rio-Grandense, em 11 de setembro de 1836.

Sendo logo após promovido a general, Netto foi a principal liderança no "front" de batalha com a ausência de Bento Gonçalves - preso no Rio e, depois, na Bahia - e o único líder contrário a paz, no final da guerra, porque não aceitou a derrota, a reintegração ao Brasil e as condições desonrosas para os farroupilhas e escravos (que lutaram sob a promessa de liberdade). Netto foi o melhor cavaleiro da história do Rio Grande - e não Osório, que o Brasil retribuiu com benesses, títulos nobiliárquicos e a menção de "patrono" da Cavalaria.

O General Netto era valente e corajoso, sempre à frente da vanguarda de sua Brigada Ligeira. Representava a síntese do gaúcho, admirado pelos subordinados, era considerado o "mimo" dos farroupilhas. Inicialmente, não demostrava ser republicano, mas devido ao descaso do Brasil durante a guerra e influenciado pelos fervorosos camaradas republicanos e separatistas, tornou-se defensor da autonomia e separação do Rio Grande, das liberdades civis e da abolição aos escravos que lutaram pela República e, posteriormente, o fim total da escravidão.

Com a derrota dos farroupilhas, Netto não concordou com o acordo de paz aceito pelos seus camaradas; acreditava que o certo e decente era continuar a lutar e defender a República Rio-Grandense e os ideais de liberdade até o fim. Perdendo quase todas as suas propriedades pela causa no Rio Grande, foi viver no Uruguai em seu auto-exílio. Levou consigo mais de 200 negros,
ex-escravos, cumprindo, em parte, sua promessa de liberdade aos que lutaram pela República. Viveu por quase 20 anos em conflitos no Rio Grande, Uruguai e Argentina, participando de quase todas as guerras neste período (1845/1865), inclusive participando ativamente da política e da
possibilidade da retomada da República Rio-Grandense.

Quando visitava o Rio Grande, era normalmente visto no Campo dos Menezes, perto do Arroio Seival, relembrando o passado (local do Combate do Seival (10/09/1836) e da Proclamação no dia seguinte). Era um inimigo potencial do Brasil, pois além de estar vivendo no Uruguai, ainda era muito respeitado e admirado no Rio Grande; comentava-se de acordos para realizar o grande sonho de Artigas: a Confederação entre Uruguai, Rio Grande e as províncias rebeldes do norte da Argentina (Entre Rios, Corrientes e Santa Fé).

Certa vez, em 1864, foi representar os gaúchos insatisfeitos, que viviam no Uruguai, junto à corte imperial. Recebido pelo próprio imperador D. Pedro II, relatou os problemas da insegurança e conflitos na fronteira, afirmando que se o Brasil não tinha condições de proteger os rio-grandenses, os próprios rio-grandenses e ele (Netto) fariam isso - uma indireta clara da retomada da República
Rio-Grandense. Enquanto isso, no Rio Grande, o Império do Brasil gastava alta somas com benesses e títulos nobiliárquicos aos gaúchos imperialistas, contra a ameaça da República Rio-Grandense bradar novamente por liberdade.

Desejo de liberdade que durou até a Guerra do Paraguai. Uma vez invadido, o Rio Grande uniu-se, imperialistas e republicanos, para defender o território gaúcho. Netto estava entre eles. Comandando a Brigada Ligeira dos Voluntários Rio-Grandenses, Netto, à frente de 1.500 cavaleiros, ostentava o pavilhão tricolor da República Rio-Grandense, para desconfiança de alguns e remorsos de outros. Era a propaganda da República. Netto acreditava que o Rio Grande, após o fim da guerra, poderia voltar a ser independente ou o Brasil inteiro proclamaria a República (Confederação de Repúblicas Independentes). Comentava-se que a Tríplice Aliança era, na verdade, representada por "quatro comandos". Participou com destaque, aos 63 anos, da campanha aliada até a Batalha de Tuyuty. Ferido em combate, foi enviado ao hospital militar de Corrientes, Argentina. Faleceu, misteriosamente, em 1º de julho de 1866. Nem os familiares diretos (mulher e filhas) tiveram acesso aos dados da "causa morte". Ferido ?? Febre ?? Envenenamento ?? Não importa, o Brasil conseguiu livrar-se do seu principal inimigo no Rio Grande.  

25 de maio de 1803 - 1º de julho de 1866
 Túmulo onde estão, desde 1966, os restos mortais do General Netto.
Cemitério de Bagé, Rio Grande do Sul.

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SILVA GOMES

Em ninguém foi maior nem mais desinteressada do que Franscisco de Paula e Silva Gomes, a dedicação pela causa da elevação do extremo sul paulista à categoria de Província. Ele excedeu a todos os pregadores da aspiração separatista, pela constante vibração do seu patriótico idealismo realizador.

Em todas as oportunidades, — nas suas relações políticas e sociais, no Rio Grande, em São Paulo, no Rio de Janeiro sobretudo, ele trazia à baila os seus argumentos sobre as necessidades da criação de uma nova Província em Curitiba, necessidades nacionais de ordem política, econômica e militar.

Era conhecido em todo o sul e na capital do Império, e em toda a parte conceituadas a integridade do seu caráter, à elevação do seu patriotismo e a inteligência com que sabia seduzir simpatias para a causa de que se fizera o movimentador magnífico, sem par do seu porte, em nenhum tempo, entre os curitibanos.

Anos e anos a fio ele fez o comércio de gado entre as campanhas do Rio Grande e as feiras de Sorocaba, varando, vezes sem conta, campos e sertões gaúchos e paulistas em imensuráveis distâncias.

Vendido o gado, transformada a indumentária de tropeiro na de homem de sociedade, afeiçoava a longa cabeleira sob as abas largas do chapéu do Chile e ia ter com os políticos da Corte, de suas relações pessoais.

A esse tempo nenhuma tipografia havia na Comarca. Paula Gomes fazia imprimir em avulsos os seus argumentos em prol do seu absorvente ideal, no Rio de Janeiro, na “Tip. Franc. rua de S. José, 64” e os distribuía profusamente por a Comarca, por toda a Província, no Rio, em Minas e no Rio Grande do Sul.

*** O ardoroso propagandista da elevação da 5ª Comarca de São Paulo à categoria de Província, nasceu em Curitiba a 4 de Fevereiro de 1802 e faleceu em Cruz Alta, R. G. S., a 9 de Abril de 1857, assassinado por um tapuio de 16 anos que ele criara como filho e que era o piá das suas tropas.

Viu, porém, realizado o seu sonho. Mas enquanto, na Província, surgiam nomes sem nenhuma expressão galgando as posições políticas, ele prosseguia na sua vida de tropeiro, sem ambições, sereno com a sua consciência de patriota — somente pretendendo refazer pelo rude trabalho a que estava afeito, sua fortuna gasta na propaganda da causa vitoriosa.

Não conseguiu. Seu mais próximo parente o Snr. João de Paula Gomes, pai do Snr. Major Antonio França Gomes, herdou os seus bens avaliados em 36:000$000, dos quais o mais valioso era uma tropa de muares.

O violino de Paula Gomes foi entregue ao seu filho natural, "mestre" Generoso, pai do Snr. Benedito dos Santos Dinis, ambos herdeiros do talento musical do patriarca da constituição da Província.

A história, porém lhe inscreve o nome em letras refulgentes, nele resumindo todos quantos, de 1811 a 1853, tiveram parte na transformação política da Comarca meridional paulista, na auspiciosa Província do Paraná e na esplêndida realidade do Estado de hoje.

(Texto compilado de Romário Martins)

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CORREIA JUNIOR

Manoel Francisco Correia Junior foi um parnanguara dos mais ilustres do seu tempo e na causa da criação da Província um dos poucos batalhadores sinceros. Fez parte da “Sociedade Patriótica dos Defensores da Independência e da Liberdade Constitucional”, criada em Paranaguá no ano de 1826, e quando, consolidada a conquista da independência do Brasil, foi sua a iniciativa de se transformar, em 1853, essa corporação cívica em Irmandade de Misericórdia, da qual resultou a fundação do hospital local, até hoje de benemérita existência. Em 1837 fundou a loja maçônica “União Paranaguense” ao que parece a primeira criada no Paraná.

Em 1842, por ocasião da revolução paulista, Correia Junior armou, fardou e manteve à sua custa um batalhão legalista, entusiasmado pela promessa de Caxias e Monte Alegre, de que, finda a luta, a Comarca seria elevada à Província.

Após a pacificação foi ao Rio, ainda a serviço da causa da Comarca. Diz ele nas suas memórias: — “No Rio tive o desejo tolo de ser útil ao meu país. Interessei-me pela separação da Comarca de Curitiba da Província de S. Paulo, separação que supunha faria a felicidade do meu país. (Esta convicção ainda a tenho hoje, 24 de Janeiro de 1848). Parecerá aos que lerem alguns anos depois, estas memórias, que isto me trazia consideração entre os meus concidadãos. É totalmente o contrário . Invejosos me desacreditaram, parentes me perseguiram e eu me vi na dura necessidade, para salvar o meu crédito, de me pôr em lugar ermo, à face dos meus engenhos e aqui (Porto de Cima) estou trabalhando a ver se posso deixar minha família sofrivelmente educada e desembaraçada, esperando que aprenda de mim que, neste mundo, as melhores ações só trazem desgosto, e, portanto, vivendo com honra deve fazer por ser independente, visto que só o real serve e a maldade triunfa sempre das melhores, mais generosas e desinteressadas ações”.

Moreira de Azevedo referindo-se a Correia Junior diz... “viu os seus haveres abalados pelos sacrifícios que fez na qualidade de Coronel da Guarda Nacional, encarregado da defesa da Comarca, ameaçada em 1842 pelos revoltosos de São Paulo”.

João da Silva Machado, encarregado das providências militares da Comarca, de cuja elevação à Província tirou o maior e melhor partido, procurou obscurecer o valor da contribuição de Correia Junior, a ele não se referindo em suas numerosas cartas ao Presidente de São Paulo sobre a defesa da Comarca, e mesmo depois, finda a rebelião, quando remeteu duas listas de curitibanos que deviam ser condecorados por serviços prestados à defesa da ordem, naquela emergência, injustamente omitiu o nome de Correia Junior que tudo havia sacrificado naquele sentido.

E foi assim que, enquanto o advena interesseiro conquistou todas as posições que ambicionou, o parnaguara ilustre e ardoroso idealista viu perdida toda a fortuna e dele se afastaram alguns dos seus próprios parentes.

________________

 *** Em todo o curso do movimento separatista da Comarca e da sua autonomia administrativa, somente aparecem três personalidades de realce, naturais dessa extensa circunscrição judiciária: FLORIANO BENTO VIANA , em 1821, MANOEL FRANCISCO CORREIA JUNIOR e FRANCISCO DE PAULA E SILVA GOMES, antes de 1842. Os demais foram oportunistas...

No momento da vitória da causa pela qual trabalharam, só existiam PAULA GOMES, CORREIA JUNIOR  e Silva Machado. Os dois primeiros morreram em 1857, quatro anos depois da realização dos seus sonhos. Na política da nova Província não houve lugar para eles. Nem posições nem honrarias, mas simplesmente o esquecimento. Ambos haviam sacrificado pela causa suas fortunas. Correia Junior foi viver num velho sitio em Porto de Cima, desiludido de leais, de amigos e de parentes. Paula Gomes fez-se novamente tropeiro vadeando os campos e sertões da Vacaria a Sorocaba, morrendo numa dessas travessias. 

(Texto compilado de Romário Martins) 

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BENTO GONÇALVES

 

Bento Gonçalves da Silva, sobre cujos ombros pesou a responsabilidade imensa de toda a Revolução de 1835, nasceu na então Freguesia do Senhor Bom Jesus do Triumpho, atual município de Triunfo, a 23 de setembro de 1788, existindo ainda, naquela cidade, a casa que nasceu. Ali residiam seus pais, quando veio ao mundo, o futuro herói gaúcho, e eram eles o alferes Joaquim Gonçalves da Silva e D. Perpétua da Costa Meirelles, sendo o pai natural de Portugal e a mãe filha do Triunfo.

Fôra Bento Gonçalves destinado ao sacerdócio, mas, como relutasse em seguir a carreira eclesiástica, foi substituído por seu irmão Roberto Gonçalves, que ficou sendo o padre da família.

Educou-se o valente gaúcho nas lides campeiras, até que, em 1811, com 23 anos de idade, começou a sua carreira militar na chamada "Campanha de D. Diogo". Bento Gonçalves foi juiz de paz na Vila de Mello, (atual cidade de Melo), Uruguai, naquela época ainda Província Cisplatina, onde casou-se com D. Caetana García da Silva, filha do espanhol Narciso García, no Departamento do Cerro Largo, onde residiu até 1818, mais ou menos, sempre se correspondendo com as autoridades militares da fronteira do Rio Grande, e organizando partidas e guerrilhas contra os castelhanos, o que lhe valeu ser elevado ao posto de capitão de milícias ficando no comando de uma "partida volante da fronteira de Jaguarão".

Começou daí a destacar-se com gestos de coragem e de audácia, perante seus superiores hierárquicos, numa série de pequenos encontros. Em 1824 era promovido a Tenente Coronel e, em 1825, ao posto de Coronel, logo depois da sangrenta batalha do Sarandy, contra os Orientais. Comandando uma Brigada de Cavalaria tomou parte saliente na indecisa batalha do Passo do Rosário, em 1827. Nomeado, em 1829, Coronel de Estado Maior foi destacado outra vez para a fronteira do Jaguarão, afirmando-se dia a dia e cada vez mais o seu prestigio.

A partir da abdicação de D. Pedro I (7 de Abril de 1831), a política na terra gaúcha tornou-se áspera e violenta. É que o movimento contra D. Pedro I fora feito com esperanças de que os portugueses, adotivos, "caramurus" ou "pés de chumbo", como eram conhecidos, fossem afastados dos cargos públicos aos quais eles se haviam perdido, quais sanguessugas vorazes. O que é verdade, porém, é que no Rio Grande eles continuaram, após aquele movimento, nos cargos oficiais com acintoso menosprezo aos Rio Grandenses.

General Bento Gonçalves

Havia dois partidos, por isso, que se degladiavam violentamente, na Província. Um formado pelos adeptos da Sociedade Defensora da Independência, que queria manter a autonomia política do Brasil e constituído, na maioria, por brasileiros natos; o outro, que era partidário da Sociedade Militar e que pretendia promover a volta de D. Pedro I ao Brasil, formado quase que só por portugueses. No desdobramento histórico desses partidos, eles tornaram-se mais tarde, respectivamente, Luzia e Saquarema, e Liberal e Conservador, durante o segundo reinado.

Para Bento Gonçalves voltava-se, naquele momento, todo o Rio Grande do Sul nas suas aspirações de liberdade. Mas, sobre o futuro chefe, pairava o olhar adunco dos retrógrados, que não tardaram em o acusar perante os grandes do Império. Chamado em 1833, à Corte, Bento Gonçalves seguiu imediatamente para o Rio de Janeiro, tendo por advogado o major Lima e Silva, seu amigo e correligionário e irmão do Regente, o qual pulverizou as mesquinhas intrigas dos inimigos do Coronel, demonstrando à Regência a falsidade das acusações que haviam movido contra o valente militar e acusando por sua vez os detentores do poder no Rio Grande. Regressou, assim, Bento Gonçalves mais prestigiado para a sua terra natal, mantido no comando de seu corpo e com uma pensão do governo em atenção aos relevantes serviços por ele prestados ao Império.

Historiar os primórdios da revolução desde as grandes agitações que sacudiram e sublevaram a alma rebelde dos continentinos até o seu evento incoercível e violento, assim como o drama e a tragédia da luta nas coxilhas esmeraldinas, seria impossível dentro das contingências de um artigo, que nem é a biografia de Bento Gonçalves, senão, apenas, uma ligeira resenha de sua vida. Basta dizer que, em tudo isto, o nosso herói era a figura central, em torno da qual desdobravam-se os destinos da revolução.

Concorrendo com o valor de seu braço e o prestigio de seu nome para o 20 de Setembro de 1835 e depondo Fernandes Braga, procurou Bento Gonçalves imediatamente prestar obediência ao Governo Imperial, mas este não o quis ouvir e ele bem andou em trazer de sobreaviso seus partidários prontos para o que desse e viesse. Não tardou, de fato, que os grandes patriotas daquele movimento vissem que o Governo Imperial apenas contemporizava com eles para logo que se visse forte persegui-los e processá-los. Então Bento Gonçalves e seus bravos companheiros de causa saíram para o campo raso das batalhas e começaram a escrever, com heroísmo inigualável, as paginas mais brilhantes da História sul-americana. No combate da Ilha do Fanfa, a 4 de Outubro de 1836, foi Bento Gonçalves aprisionado por Bento Manoel Ribeiro, que assim vibrava um profundo golpe na revolução, ferindo-a em cheio, no que ela tinha de mais caro. Os ânimos daqueles bravos inquebrantáveis não se entibiavam jamais diante dos revezes. Proclamada a República por Antonio de Souza Netto, nas margens do Seival, foi, pouco depois, escolhido Bento Gonçalves para seu presidente. E assim, enquanto o chefe revolucionário amargava os dias na fortaleza de Santa Cruz, no Rio, e, mais tarde, no Forte do Mar, na Bahia, os seus irmãos daqui o homenageavam desse modo, e, ainda mais, era ele promovido ao posto de general, por decreto do governo Farroupilha de 12 de Novembro de, 1836, por seu "merecimento, valor, acrisolado patriotismo, perícia militar e relevantes serviços que ha prestado à causa da liberdade Rio Grandense". Lançavam, deste modo, um cartel desafio aos imperiais, certos de que ele um dia ainda volveria aos pagos para novamente pôr-se à frente daquele grupo de heróis. E Bento Gonçalves, de fato, a 10 de Setembro de 1837, conseguiu evadir-se da Bahia e retornar à sua terra, assumindo outra vez, o comando  da luta.

O grande combate de Rio Pardo travado a 30 de Abril de 1838, o mais importante da Guerra, com a formidável vitória obtida pelos Farrapos, veio dar-lhes muita força moral e material. A república parecia consolidar-se e o governo ia, aos poucos, se organizando. A invasão de Santa Catarina, em 1839, por Canabarro, auxiliado eficazmente por Garibaldi, foi um segundo desafio aos Imperiais.

Convocada e reunida a constituinte farroupilha, em 1842, dela, que tanto se esperava, surgiu a desavença entre os amigos da véspera e uma acirrada luta partidária, que as intrigas mais acentuaram, levou Bento Gonçalves a se demitir da Presidência da República e a entregar o comando do Exército Rio Grandense a David Canabarro num grande e nobre gesto de renúncia e desprendimento.

O duelo por ele travado com seu parente Onofre Pires, do qual resultou a morte deste, ainda mais veio desgostá-lo. Entretanto, continuava o mesmo soldado de sempre, brioso e leal. E só, no ultimo momento, em 1845, quando o último soldado seu recolheu-se ao rancho da querência distante, é que Bento Gonçalves, pobre e abandonado, despiu se, por fim, da armadura de cavaleiro andante, envolvendo-se na penumbra para morrer, dois anos mais tarde, na residência de Gomes Jardim, em Pedras Brancas, atual município de Guaíba.

Erros poderia ter esse Gaúcho de valor. Erros tiveram muitos homens da sua estatura moral e a História lhes perdoa. Mas, nós simbolizamos nele todo o decênio heróico, glorioso, memorável, inesquecível, da Guerra dos Farrapos. Foi ao aceno da sua espada sem mácula, ao seu caráter adamantino, ao seu prestigio oriundo de um passado que era uma garantia para o porvir, que os Rio Grandenses se ergueram um dia, cansados de tanto desapreço em que eram tidos por aqueles áulicos da Corte, que, como o governo de Brasília de hoje, só exigiam o nosso trabalho, a nossa coragem, o nosso sangue, os nossos recursos financeiros e humanos, sem dispensar-nos sequer a mínima consideração.

Honremos, por isso, Bento Gonçalves da Silva, cuja figura legendária é bem a encarnação de toda uma raça de titãs!

Monumento em homenagem a Bento Gonçalves - Porto Alegre - RS

    Condensado de:
Episódios e Perfis de 1835
Deoclécio
Paranhos Antunes
Ed. Livraria do Globo
Porto Alegre - 1935

 

 

 

 

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GUMERCINDO SARAIVA

Nascido em 13 de janeiro de 1852, primogênito do ex-combatente farroupilha Francisco Saraiva e Dª Propícia da Rosa, tem sido Gumercindo Saraiva um dos personagens mais injustiçados pela história oficial.

Acusado em primeiro lugar de nem ser sulista (alguns insistem em dizer que era uruguaio), foi redimido por Luís Felipe de Castilhos Goycochea, em seu livro “Gumercindo Saraiva na Guerra dos Maragatos” (Ed. Alba, Rio de Janeiro, 1943), onde foi apresentada transcrição de seu assentamento de batismo, provando definitivamente ter Gumercindo nascido em território Rio Grandense, no atual município de Arroio Grande.

Ainda criança transferiu-se com sua família para o departamento de Cerro Largo, Uruguai, onde seu pai faria fortuna, chegando a ser um dos homens mais ricos daquele país.

Quando Gumercindo, juntamente com seu irmão Aparício, atingiu a adolescência, foi enviado a Montevidéu, para estudar no colégio de Montero Vidaurreta, conhecido educador. Os pais achavam que eles poderiam ser médicos ou advogados, mas os dois logo se aborreceram e aproveitaram a primeira oportunidade para escapar da escola. A primeira que surgiu foi um levante contra o governo colorado de Lorenzo Batlle, em 1870. Essa revolução, liderada pelo caudilho rural Timoteo Aparicio, ficou conhecida como Revolución de las Lanzas, devido à arma que predominou, o que testemunhava o primitivismo da tecnologia militar disponível na época. Por conta da revolução, Gumercindo começou a acumular prestígio, chegando a ser nomeado comissário, logo após seu término, em 1872. Seria o prenúncio da carreira do homem que, anos mais tarde, seria amado por seus correligionários e odiado mortalmente por seus inimigos políticos.

Gumercindo Saraiva

Casou-se aos 21 anos e teve 4 filhos. Após o casamento, cuidou da vida familiar e do progresso da estância que morava, ainda no Uruguai, sendo muito conhecidas suas habilidades como tropeiro.

Num dia de 1875 chegou a notícia de que don Angel Muniz estava em armas novamente. Gumercindo foi nomeado tenente em um piquete de Justino Muniz, irmão de don Angel. Aparício receberia o posto de alferes. A revolução, entretanto, não passou de algumas movimentações de tropas e um ou outro entrevero com os adversários, já que o caudilho Timoteo Aparicio desautorizou o movimento armado. Logo chegou a notícia de que a revolução acabara, antes mesmo dos primeiros conflitos armados.

Gumercindo, entretanto, já era um homem marcado. Todos sabiam de sua afeição às revoluções e que era um blanco, inimigo dos colorados. Por conta disso, seus vizinhos de estância, que eram colorados, armaram um conflito de divisa de terras visando provocar algum incidente que o prejudicasse. No entrevero que se seguiu acabou atirando em um peão do vizinho. Um processo penal foi instituído com todo o júri colorado. Ante a ameaça de ser preso, Gumercindo deixa o Uruguai e vem viver em Santa Vitória do Palmar, administrar uma das estâncias de seu pai. Em seguida consegue o respeito e simpatia de seus vizinhos, principalmente por ser ativo combatente do abigeato (roubo de gado) na região.

Seu biógrafo Manuel Fonseca disse: “Gumercindo era um chefe nato, um caudilho senhoril, um cavalheiro bem apessoado, que de imediato conquistava o coração dos que se lhe aproximavam”.

Em seguida comprou suas próprias terras e logo foi nomeado delegado; o Imperador Pedro II ofereceu-lhe o título de Barão de Santa Vitória do Palmar, que ele recusou a um pretexto qualquer, mas em verdade por ser republicano, como era seu pai desde a Guerra dos Farrapos.

Julio de Castilhos em 1890, quando cogitou organizar o Partido Republicano em Santa Vitória, mandou oferecer-lhe a chefia local do mesmo, por intermédio de Assis Brasil, a qual oferta recusou por não admitir a colaboração dos antigos conservadores, seus tradicionais inimigos de longa data. Segundo alguns autores, aquela recusa foi a causa do ódio que passou a devotar-lhe Julio de Castilhos, e a causa de todas as acusações que passou Gumercindo, de então em diante.

Com a ascenção de Julio de Castilhos ao governo do Rio Grande, foi exonerado da função de delegado passando, por ser inimigo deste, a ser perseguido, tendo inclusive enfrentado processos judiciais, que culminaram com sua prisão e, em seguida uma fuga espetacular do cárcere.

Numa fase de instabilidade no governo Rio Grandense, estabeleceu-se a dualidade de poder, de um lado o federalista Joca Tavares, e do outro o castilhista Victorino Monteiro. O Rio Grande estava prestes a se convulsionar. A revolução estava próxima. Gumercindo voltou ao Uruguai para se juntar aos rebeldes, que organizavam suas tropas em Melo.

Quatrocentos cavaleiros atravessaram a fronteira no passo do Aceguá, silenciosos e graves. Gumercindo estava vestido de negro, e levava o lenço branco atado ao pescoço, assim como Aparício. Todos os demais usavam lenços vermelhos - a marca dos maragatos -, e que se transformariam também no símbolo da revolução.

Gumercindo e Aparício, entretanto, jamais colocariam aquela cor ao pescoço, mesmo que estivessem indo para uma guerra. O lenço branco, símbolo do Partido Nacional, pelo qual eles haviam dado o sangue, nunca seria trocado pelo do antigo inimigo. Os dois irmãos, ao que parece, professavam um respeito sagrado aos símbolos. Não importava que a guerra fosse em outro país, por outros motivos, talvez por outras idéias.

As batalhas se sucederam e em seguida os rebeldes, que eram doze mil, tomaram várias cidades do Rio Grande. Mas uma decisão controversa de Joca Tavares, o chefe da revolução, fez com que recuassem e voltassem ao Uruguai, depondo armas. Os orgulhosos revolucionários que haviam invadido o Rio Grande a menos de dois meses voltavam ao Uruguai humilhados e perplexos diante da decisão de seu chefe.

Mas na tensa reunião em que os rebeldes decidiram a volta ao Uruguai para reorganizar suas forças, o Coronel Gumercindo Saraiva declarou solenemente que não atravessaria a fronteira. A decisão de Gumercindo naturalmente deve ter causado mal-estar na cúpula. Afinal, o general Joca Tavares e o general Salgado sabiam o que faziam. Tinham galões, tinham feridas, tinham história. E esse castelhano quem era? São questões que dizem respeito ao amor-próprio dos caudilhos, mas havia também a questão política. Em que princípio Gumercindo Saraiva era mais atilado e reto do que qualquer outro deles? Tais questões ficavam no ar. De qualquer forma a iniciativa de Gumercindo teve que ser aceita. Na mesma noite partiu com seus quatrocentos lanceiros. O primeiro desafio seria evadir o cerco governista. Mesmo com o descrédito de muitos, conseguiu passar e, já na manhã seguinte assaltou um potreiro republicano e levou 1600 cavalos gordos. A lenda estava começando.

Logo as suas histórias começavam a percorrer o Rio Grande: um trem assaltado em Bagé, um curral incendiado em Jaguarão, fios de telégrafo sabotados em São Gabriel, a tomada de Lavras e a entrada triunfal em São Sepé.

Aparecia e desaparecia com uma velocidade desconcertante, desmoralizando as propostas de paz e as ofertas de garantias para os federalistas que depusessem as armas. Contra todos os pareceres, a guerra continuava, e tinha um nome: Gumercindo. A Divisão do Norte foi chamada para perseguir, encurralar e destroçar o contingente de Gumercindo Saraiva. Perseguiram-no dia e noite e quando pensavam que o tinham encurralado em Vacacaí Grande perderam-no num capão cerrado.

Apareceu de repente em Herval, deu um susto em Arroio Grande e depois se apresentou diante de Jaguarão e postou-se em posição de ataque. Pinheiro Machado compreendeu que Gumercindo tinha a intenção de avançar até a cidade de Rio Grande para apoiar Wandenkolk que, agora estava diante do porto de Rio Grande, com sua precária armada. Se Gumercindo pudesse dar-lhe apoio, as coisas começariam a ficar complicadas. Pinheiro Machado compreendeu que Gumercindo poderia incendiar os ânimos dos federalistas mais uma vez. Acelerou a marcha da Divisão do Norte para tomar-lhe a frente. Gumercindo parou sua marcha, esperou, depois retrocedeu. Recebera a notícia de que os federalistas já estavam recompostos, mais bem armados e tinham tornado a entrar em território gaúcho. A reunião seria em Ponche Verde, perto de Dom Pedrito. Com rapidez desmobilizou o cerco e tocou no rumo do oeste. Quando Pinheiro Machado chegou na região não encontrou mais vestígio dos federalistas. Pinheiro Machado começava a entender por que Assis Brasil, certa vez, fizera questão de aliciar o caudilho. O homem fora um tropeiro. Como ele, conhecia os atalhos.

Com a Revolta da Armada e a tomada de Desterro, atual Florianópolis, pelos revoltosos, os federalistas pensaram em uma união com esses para a derrubada de Floriano Peixoto (uma vez que esse apoiava Julio de Castilhos) e assim Gumercindo iniciou a invasão de Santa Catarina e, posteriormente, do Paraná, invadindo Curitiba em janeiro de 1894, onde estabeleceu o quartel general. Em seguida procedeu, juntamente com seu irmão Aparício, o memorável Cerco da Cidade da Lapa, onde venceu os governistas após 26 dias de batalha. Em fins de março, chegou a Ponta Grossa. Nessa cidade lançou a ordem do dia anunciando a invasão de São Paulo, na qual consta a primeira manifestação documentada da intenção da criação de um novo país constituído pelos três Estados do Sul, unidos: “a consciencia me diz que eu devo proclamar a independencia do Estado do Paraná e dos seus dois irmãos do Sul.” (Ordem do Dia nº 6 – Ponta Grossa – Paraná – 7 de abril de 1894).

Com a reorganização das tropas da ditadura de Floriano, recuou ao Rio Grande, onde, logo após reorganizar as tropas federalistas, ao fiscalizar alguns piquetes revolucionários, foi baleado por governistas tocaiados em meio a um capão de mato, num ato considerado indigno por qualquer combatente rio grandense da época. Em 10 de agosto de 1894, no Carovi, expirou, sendo sua morte um golpe na organização da revolução.

Enterrado em Santiago do Boqueirão, seu túmulo foi profanado pelos governistas que, ao saberem que se encontrava enterrado ali, o desenterraram para cortar sua cabeça e leva-la a Julio de Castilhos.

Hoje, seu corpo sem cabeça encontra-se sepultado no Cemitério Municipal de Santa Vitória do Palmar.

Acusado de atrocidades pela propaganda de guerra governista, centenas de testemunhos desmentiram tais fatos, inclusive de inimigos políticos seus. Em casos de abusos cometidos por seus comandados, punia exemplarmente, pois não aceitava que as tropas maragatas fossem consideradas violentas e não de soldados disciplinados. Quando soldados maragatos foram acusados de roubar uma coleção de moedas do Museu Paranaense, a título de ressarcimento o então General Gumercindo Saraiva doou sua espada ao acervo do Museu, onde encontra-se até hoje. Afastou seu primo do comando de uma brigada por ter recebido denúncias de que este era cruel com seus prisioneiros. Em suma, seus atos provaram ser dotado de uma retidão de caráter visível em poucos líderes da época.

Cumpre lembrar que os revolucionários Federalistas, ao ganhar as batalhas, garantiam os direitos e a vida dos adversários, como nas capitulações de Tijucas e da Lapa, onde todos os oficiais e praças florianistas foram libertados sem punição. Entretanto, as mesmas tropas governistas, quando venceram, não demonstraram a mesma grandeza; ao contrário, partiram para a retaliação e vingança, ente tantos, citamos o célebre caso do martírio do Km 65 da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, onde foram fuzilados o Barão do Serro Azul e outros célebres cidadãos paranaenses inocentes.

Em Desterro, atual Florianópolis, ocorreram centenas de fuzilamentos de prisioneiros inocentes, entre eles o Barão do Batovi e seu filho; muitos cidadãos catarinenses foram tirados de suas casas sem nunca terem colaborado com a Revolução, sendo assassinados também, por ordem de Floriano Peixoto e sob o comando do tristemente memorável coronel Moreira César, famoso por suas atrocidades, como foi em Curitiba o famigerado general Ewerton Raimundo de Quadros. Os fuzilamentos somente pararam quando negociada a mudança do nome da capital catarinense para Florianópolis, em triste homenagem ao verdugo dos filhos da nobre terra catarinense.

Castilhos Goycochea, Luiz Felipe – Gumercindo Saraiva na Guerra dos Maragatos – Ed. Alba – Rio de Janeiro – Brasil – 1943.

Ruas, Tabajara; e Bones, Elmar – A Cabeça de Gumercindo Saraiva – Ed Record – Rio de Janeiro – Brasil – 1997.

Dourado, Ângelo – Voluntários do Martírio – Fac-símile da edição de 1896 – Martins Livreiro Editor – Porto Alegre – 1992.

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  GIUSEPPE GARIBALDI

Giuseppe Garibaldi

Aventureiro, "condottieri", caudilho ou coisa equivalente, Giuseppe Garibaldi só pode ser classificado com um desses adjetivos, em que pese a qualificação. Nascido em 04 de julho 1807, em Niza, Itália (hoje Nice, França), muito jovem ainda começou a sua trajetória de  aventuras. Depois de pequenas traquinadas, pontilhadas de lances de coragem, fez-se marinheiro e cruzou o Mediterrâneo com pouco mais de vinte anos. Adoece em Constantinopla, e só regressa à Pátria em 1833, onde se encontra, pela primeira vez, com Mazzini - o homem que já começava a revolucionar a Itália em nome da República. Já era Mazzini, por este tempo, o mentor do "Jovem Itália", jornal que foi a cartilha por onde leram todos os revolucionários do mundo e que teve projeção até no Rio Grande dos Farrapos. Ao lado de Mazzini, tentam, Garibaldi e outros, sublevar a Itália, mas, fracassada aquela tentativa, Garibaldi viu-se condenado à morte. Sua fuga tem lances emocionantes, preludiando já as suas futuras aventuras. A bordo do "Nantonnier" transporta-se então para a América do Sul.<